“Por ela e por nós…”

Era um dia quente. Mais um no Rio. Um dia violento também. Até então, nenhuma novidade. Protestos, denúncias, ameaças. Uma ou outra vitória junto a promotoria, um aceno de apoio da corregedoria e eu ainda sentia o hálito quente da milícia na minha nuca.

Saía do quinto debate da semana. Mulheres assustadas, adolescentes acuados em torno de mim esperando uma palavra que lhes desse alento, esperança. Que puta responsa. E eu querendo lhes dizer que eu não tinha autoridade nenhuma, salvação nenhuma nas mãos. Queria lhes fazer entender que a autoridade mesmo eram eles, ou que pelo menos deveriam ser. Direitos humanos… Falar disso na favela ou mesmo em comunidades pacificadas é como recitar um conto bíblico. A terra de Moisés onde jorra maná e mel. E eu só queria que um menino negro de dez anos não tivesse medo de tomar uma bala na testa fosse ela perdida ou encontrada pela raiva amarga de um policial.

Olho pra eles e falo. Nem sei o que falo, mas sei que é bom, que lhes traz um bem. Mas por dentro penso:

“Essa gente não tem ninguém.”

A cor da sua pele é uma sentença. Suas contas bancárias, folhas corridas, Pis e INSS não passam de atestações miseráveis do que são e de que como serão tratados. A espera pelo seguro desemprego, as horas impacientes na fila da Caixa Econômica e a felicidade ingênua ao poder comprar um sorvete a mais, um boné a mais.
E a estupidez também. A estupidez do medo, da ignorância. A desinformação e o desamparo que transforma meninos em pequenos gângsters. Gângsters que roubam, que cheiram, que soltam pipa pra proteger a bocada, que carregam armas pesadas em suas virilhas ainda virgens.

E me pergunto: Quem olha por eles? Ninguém, meu Deus?

Sim, Deus. A igreja católica distribuindo culpa e extrema unção tardia, a evangélica distribuindo afagos corruptos por baixo das saias das meninas de ninguém. Os pastores tomando o dinheiro e toda a esperança que eles possuem. E eles ainda esperam. Esperam por um Deus que desça ou que suba o morro, que estanque a enxurrada, um Deus que salve o barraco, que ponha juízo e misericórdia no rosto do homem que carrega o fuzil. Um Deus que adormeça a fúria dos encapuzados da milícia que matam pequenos e pequenas, ilícitos ou não, por um pouco de trocado nesse senso de justiça podre que as autoridades inventaram para adoçarem suas consciências.

Mas o Deus não vem. E essa gente continua esperando. O Natal pobre regado à frango de padaria, a família inteira reunida embaixo da mesa por causa do tiroteio. O filho mais velho que não volta à tempo pra ceia. Não volta. Mas mesmo assim eles ainda esperam. Esperam e dançam. Fazem samba, funk e carnaval. As meninas pintam a genitália de verde e rosa, os meninos sonham em ganhar a chuteira de ouro ao lado do campeão português. Tudo é sonho e fantasia. Ninguém quer ou tem força pra se conscientizar, pra escolher em quem votar, para lutar por seus direitos.

Então eu me calo por alguns instantes. Tenho gritado muito ultimamente. Feito muito barulho. Mas não por altruísmo e sim por necessidade. Por também ser pobre, preta e lésbica. A vida não me deu escolha. O grito foi a minha primeira sílaba. E se meu grito serviu pra acordar meio quarteirão do morro e fazer tremer nem que seja por dois segundos a mão dos tiranos, eu estou satisfeita.

Entro no carro. A semana foi difícil. Uma melancolia triste me acompanha desde sábado. No fundo todo mundo sabe o tamanho da sua missão e desconfia, ao menos intuitivamente, quando ela termina.

Eu percebi que um carro nos segue desde a Lapa. E agora ele se emparelhou ao lado do nosso. O coração gela, as mãos gelam, mas a alma está tranquila. No final das contas é tudo mesmo um grande carrosel insano. O estilhaçar da janela e o estampido no interior do carro me lembram as quadrilhas de São João. No morro a gente nunca sabe se é festa ou se é briga. Se é chacina ou fogos de artifício. Escolho o último. Gosto das cores que meus olhos agora pintam. Há uma gritaria generalizada em torno de mim, mas não ouço mais nada. O sorvete que cai da mão do menino, a mãe que sobe o morro com a sacola do supermercado, a mão corrupta do pastor por baixo da roupa branca da criança, o dedo insano do gatilho, tudo isso vai ficando longe.

Dizem que a morte dos que lutam multiplica a força da voz dos que ainda gritam. Quando pequena eu queria mesmo era cantar ópera, mas paciência. Paciência…

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.