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O processo de luto diante da morte de uma pessoa significativa

Com a aproximação do dia de finados, é muito comum que esta data ocasione lembranças carregadas de angústia e saudade.

Primeiro é preciso deixar claro que todas as descrições de possíveis comportamentos de uma pessoa enlutada, que serão descritas aqui, não ocorrem necessariamente com todos, variando em relação à apresentação dos sintomas físicos, psicológicos, tempo e intensidade.

Diante da morte de alguém que amamos, ou que tenhamos proximidade, além do encerramento de um ciclo, também nos deparamos com uma série de questões, entre elas a questão de nossa própria mortalidade. Não estamos acostumados a pensar em nossa própria finitude, abordar e discutir este assunto em pleno século XXI ainda é um tabu a ser quebrado.

O falecimento de uma pessoa significativa faz com que a pessoa de luto experimente um misto de sentimentos. A tristeza, um tanto quanto óbvia, é a mais comum e com ela sentimentos como raiva e culpa se fazem presente. Um enlutado também pode apresentar sentimento de culpa, acreditando que de alguma forma poderia ter feito mais para evitar a morte do. Já a raiva pode ser dirigida para si, ou para qualquer pessoa que no pensamento do enlutado possa de alguma forma ter contribuído para morte, inclusive o próprio falecido.

A ansiedade é um fator que vem sendo bastante discutido em uma situação de falecimento, sua origem pode ocorrer diante do fato da pessoa não acreditar que conseguirá viver sem o falecido ou quando o enlutado passa a ter a consciência um pouco mais consistente sobre o falecimento, entendendo-o como uma perda definitiva. Quando não tratada, a ansiedade por evoluir para um quadro de fobia.

Um sentimento em especial foge da linha dos já citados. Certamente, você já se deparou com uma pessoa que demonstrou determinada frieza diante da morte de alguém, os motivos pelos quais isso ocorre podem ser os mais variados, mas existe um sentimento no processo de luto chamado Torpor, resumidamente, trata-se de uma certa anestesia de sentimentos. Diante de tantas emoções para lidar, o torpor trabalha como uma forma de bloqueio. Vale lembrar que é comum tal sentimento, logo após a notícia da morte, quando esta reação se estender por um longo período, é preciso atenção.

Reações como enaltecer o falecido com características além das quais ele possuía, podem surgir como meio de alívio e com frequência. Todas as reações de um processo de luto irão depender do grau de proximidade entre falecido e enlutado, o tipo de relação estabelecida, crenças pessoais, causa da morte e idade de ambos os envolvidos.

Vivemos em um mundo no qual não é dado espaço ao sofrimento do outro, as coisas acontecem muito rápido, quando uma pessoa vem a óbito tudo é feito com muita agilidade, agilidade que também é cobrada para a recuperação do enlutado. Essa pressão para que todo o processo termine e para que o enlutado siga em frente, não é bem vista com bons olhos pela psicologia. A pessoa que acaba de perder alguém precisa de tempo e este tempo não é algo que deve ser estabelecido pelos outros. Cada indivíduo tem seu próprio processo de luto, o sofrer é algo que deve ser tido como natural, a pessoa precisa de um tempo para internalizar a perda e para escolher quais os mecanismos de defesa que irá utilizar para lidar com isso.

Pessoas a volta de quem acabou de perder alguém, sentem-se muitas vezes perdidas, o que é natural, mas algumas dicas podem ser importantes para auxiliar o outro nessa vivência tão dolorosa. Sugere-se a não banalização da dor dos sentimentos de um enlutado e auxilio para realizar as partes burocráticas que envolvem sepultar alguém. Também deve-se ficar atento aos cuidados básicos de higiene e alimentação, é normal que hajam mudanças negativas neste quesito a princípio, mas quando se estendem é preciso ajuda profissional e o fortalecimento do apoio ao redor. A rede de apoio familiar e de amigos é apontada pelas pesquisas que abordam o tema do luto, como um auxílio importante e que quando realizada de maneira adequada pode confortar todo processo.

O processo de luto precisa ser vivido e sentido com todos os aprendizados que ele pode nos oferecer, em um primeiro momento, pode soar entranho, porém passar por um período de luto, pode ensinar importantes lições, entre elas a reflexão da própria mortalidade, a melhora da relação com as pessoas ao redor e aparecimento e fortalecimento de novos vínculos. Por outro lado, há aqueles que não conseguem chegar à fase da reorganização, prolongando o sofrimento de uma forma que afete as outras áreas da vida, para essas pessoas. Neste último caso, deve-se procurar ajuda, a terapia em grupo tem sido uma alternativa que vem mostrando resultados efetivos, pois através da dor do outro, é possível se solidarizar e encontrar conforto e trocar experiências.

Portanto, todas as perdas necessitam da vivência do luto, para que se interiorize aquilo que é essencial e assim possa-se seguir adiante.

 

Referência Bibliográficas

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Monica. Morte na Família: sobrevivendo às perdas. Porto Alegre: ArtMed, 1998.

HENNEZEL, Maria de. Superar o tabu da morte da atualidade: O desafio de um humanismo espiritual. In: HENNEZEL, Maria de; LELOUP, Jean-yves. A arte de morrer: Tradições religiosas e espiritualidade humanista diante da morte na atualidade. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

WORDEN, J William. Aconselhamento do luto e terapia do luto. 4. ed. Sao Paulo: Editora Roca Ltda, 2013.