O Menino e o trem | Diálogos de HOJE

Lá vai o trem com o menino.
Lá vai a mãe que chora no portão.
Lá vai a criança que sorria. O pião enrolado num canto da mala, escondido dos planos do pai. Planos de ser gente.

Lá vai o trem com o menino. Menino que escrevia poesia e que hoje só faz aritmética. Menino que trabalha no armazém, que estuda, que mora na república, que perde o amor da sua vida e que se casa com outra. Que acorda cedo todo dia e acolhe no fígado, as resiliências da vida.

Lá vai o trem com o menino.
Lá vai o vento levando embora seus cabelos, lá vai o sol que franziu sua fronte, lá se vão os nãos que lhes curvaram as costas.

Lá vai o trem com o menino. Menino que aprendeu o cinismo. Lá vai seu sorriso sincero, lá se vão os versos de infância virar papel pra embrulhar as pressas da vida.

Lá vai o trem com o menino. Lá vai o mistério dando lugar à métrica. Lá vai a hipoteca da casa, a prestação da escola dos filhos, a amargura da esposa mal escolhida. Lá vai o bater do coração agora que tudo é mórbido conforto e suave pesar.

Lá vai o trem com o menino. Menino que não sobe mais em árvore, que não ri alto, que não se banha na cachoeira e que agora só conhece o ranger da pesada cadeira de balanço.

Lá vai o trem com o menino. Lá vai o seu olhar, sua ternura e o seu amor pelo mundo.
Lá vai o seu gesto, o seu encanto e o ruborizar ingênuo do seu coração.

Lá vai o trem com o menino.
Lá vai…

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.