Mataram o senhor José Alfredo

Diz a viúva: O rosto marcado por guerras que sequer se alistou. (Coluna Diálogos de HOJE)

Só porque ele era simples. Só porque ele era ameno. Só porque era dado a singelezas e de vez em quando rezava para um santo de nome bonito.

Mataram o senhor José Alfredo. Mataram a sua voz, o seu gesto. Apagaram o brilho de seus olhos.

Até que durou o senhor José Alfredo. Conseguiu se esquivar bravamente dos tiros perdidos da comunidade em que morava, das humilhações diárias do transporte público e do apêndice curado sozinho na fila de espera da Santa Casa.

Muito me surpreendeu a sua morte porque sempre pensei que alguém que conseguia sobreviver com um salário mínimo e ainda assim criar dois filhos com a decência que Deus pede só podia ser imbatível.

Que maçada ir ao seu enterro. As velas emprestadas, o choro contido da esposa, a lágrima desidratada dos filhos. Tudo gente que se acostumou às perdas como quem aceita os cataclismos:

“Coisa que Deus quis. O que se há de fazer?”

Diz a viúva. O rosto marcado por guerras que sequer se alistou.

Mas o fato é que não foi terremoto nem enchente e nem desastre natural que sucedeu àquela família. Mataram o senhor José Alfredo de morte matada. E é por isso que me incomoda tanto o vozerio lá de fora. A lambança que fazem os vencedores com suas mãos sujas de sangue e o buraco feio e fundo que produzem no chão com seus pés de marcha patriótica. E me incomoda, sobretudo, o ensurdecimento que seus gritos de vitória causam nas crianças ainda tenras e alheias ao caos.

Sim, nós os adultos e velhos estamos amordaçados e mudos e nossas “esperanças de um dia”, que são as crianças, estão surdas. E só nos resta agora testemunhar com olhos cansados e atônitos o que vemos e o que veremos daqui pra frente.

Mas é esse o fato. Mataram o pobre José Alfredo. E assim por nada. Por uma nadica de motivo. Por um enfado, uma impaciência qualquer. Coisa de gente burra e distraída que anda de arma em punho atirando contra tudo o que for na contra mão de sua vontade.

Dizem, as boas e más línguas, que foi coisa de revanche também. Não gostavam do último patrão do José Alfredo então decidiram mandar ele pra vala. Só por isso. Mas nem nisso acredito. Desde quando se resolve uma morte com outra?

Mas aqui é assim. Por esses lados, por essas terras tropicais onde se respira tanta beleza ao mesmo tempo em que se pisa ainda na marca do sangue dos bandeirantes, dos índios e escravos, a opção final e única ainda é a mão do descontrole e da violência. Em terra assim, mesmo com ares de modernidades, o que ainda manda mesmo, se a corrupção não resolver, é o bom e velho trabuque.

Mataram o senhor José Alfredo. Pobre, frágil e simples e que por um acaso triste, tinha por sobrenome, Democracia.

 


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Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.