Eis porque não se pode ouvir Anita impunemente

Eis porque não se pode ouvir Anita impunemente

Bom, pra começar devo esclarecer que não sou contra o funk. Gosto da batida, acho forte, envolvente, sensual. Sem dúvida representa a força de expressão de um povo. James Brown que o diga. No entanto, e eis que o problema se encontra sempre nesse tal de “no entanto”, como tudo no Brasil e acredito que em boa parte do mundo, a essência se modifica, se corrompe e se transforma em algo que vai muito além da nossa compreensão.

Esclareço também que gosto da Anita. Acho sua voz suave, gostei quando ela foi no especial do Roberto Carlos (sim, eu assisto o Rei e possuo todas as licenças poéticas pra isso) e dancei ao som das Poderosas.  Achava uma música interessante de um empoderamento bacana onde mulheres e homens se nivelavam nas pistas dançando e fazendo biquinho. Era divertido. Tinha um quê de Destiny´s Child, Charlie´s Angels. Era legal essa coisa de mulheres lindas e bem resolvidas ocupando lugares que antes eram dos homens.

Mas como tudo descamba na Terra Brasilis, lá se foi a moça de voz suave passar do patamar de poderosa, meiga e abusada para se transformar na expressão máxima do orifício falante da nação. Judiação. Judiação mesmo. Uma voz bacana, um visual bacana, um senso de empreendorismo e um quê de menina do bairro ao lado transformado em um símbolo sexual sem limites, uma simples genitália cantante.

Ok, vão dizer que isso é expressão real do povo, que eu nunca fui numa favela e nem subi o morro de tamancos. Mas vamos combinar? Que raios de moradora de comunidade toma sol usando apenas um esparadrapo no traseiro e dança freneticamente em cima de uma mesa de bilhar tendo a sua volta um monte de homens com tacos nas mãos?

Estou enganada ou tudo o que é bom, razoável ou mais ou menos simpático, o sistema midiático trata de transformar num filme pornô classe Z? E sei que isso tudo nem é culpa da cantora. Sim, dizem que ela é uma self made woman, que há tempos gerencia pessoalmente sua carreira e tem alçando voos jamais imaginados para uma garota do subúrbio, mas poxa, será que pra isso precisa mesmo transformar o derriére numa máquina de produzir vendaval em velocidade número cinco?

A última vez em que uma televisão me pegou distraída o suficiente para assistir um show do tipo fiquei pasma ao ver que aquela moça antes cheia de atitude e poderosa agora começava o seu show de costas no palco. A bunda é o seu cartão de visitas, a sua assessoria de imprensa, o seu novo rosto. Triste. Muito triste.

E esse fenômeno do peito primeiro, da bunda primeiro, da perna primeiro e alma depois, beem depois, tem atingido muitas mulheres por aí. É só observar o comportamento delas. As roupas, o cabelo. Tudo milimetricamente pensando para arrasar. Essa é a palavra de ordem. Está com algum problema? Tomou um fora? Está deprimida? Poe o traseiro na pista que tudo se resolve. Freud e terapias a custo de drinks e elogios baratos. Pronto. Cem likes na foto mostrando o pernão e a pobre criatura está resolvida para os próximos cinco anos. Ou pelo menos enquanto durar o tônus da sua musculatura.

A mulher moderna nem se dá conta do engodo em que caiu. Nem desconfia que saiu direto dos anos 50 onde era apenas um acessório doméstico para virar outro acessório. Um sex toy, um aplicativo generalizado para o bel prazer sabe-se lá de quem, pois acredito que nem os homens, ou boa parte deles, curtem esse modelo revisitado de fêmeas onde braços, coxas, fígados e comportamento são comparáveis aos dos vikings.

O que vemos por aí então é um monte de mulher com a cara e o corpo do Asterix e Obelix só que loiras e com lábios à la Angelina Jolie. Podem imaginar a cena? Um mosaico de muito mal gosto mesmo.

Nos longos e bons anos em que morei na França uma amiga parisiense e apaixonada pela cultura brasileira me disse certa vez:

“Vou êtes comme des enfants. Tout sur vous est superlativ, intense e un peu hystérique.”

“Vocês são como crianças. Tudo em vocês é superlativo, intenso e um pouco histérico.”

Voilà ma chère amie! A senhorita resolveu de uma só tacada todo o intricado sistema cultural e emocional de nosso colonizadíssimo país.

De certo modo há algo em nós de extremamente exibicionista. Somos ainda como os índios de frente aos portugueses mostrando nossas penas e artefatos. O problema é que trocamos toda nossa linda e rica cultura por espelhos e aí já viu. Maravilhados com o reflexo distorcido de nós mesmos e com os comandos ainda mais distorcidos de catequizadores e bandeirantes sanguinários, fomos amealhando esses conceitos castradores de nossa própria essência. E já me disseram que uma vez esterilizados do que somos e esvaziados de nossa espontaneidade acabamos por nos transformar em meras representações do externo. É isso mesmo. Evoluímos da condição de homo sapiens a homo erectus e depois estacionamos na mera posição símios adestrados. Só isso. Parece que seremos eternamente pobres emergentes tentando agradar uma cultura distante. Provar que somos dignos. Por isso o interesse tão grande no sobrenome vindo das caravelas, do orgulho em dizer:

“Sou descendente de italiano.”

“Sou filho de portugueses.”

“O meu sangue tem uma gota de holandês da época em que eles ocuparam, por ínfimos anos, a costa do Nordeste!”

Mas ninguém diz com a clareza que uma convicção verdadeira exige:

“Sou brasileiro. Inteirinho brasileiro.”

“Ou sou filho de negros, neto de cafuzos, descendente de mamelucos ou dos Chavantes!”

Não. Não pega bem no chá das cinco. Não combina com esse modo de vida afetado e ridículo que copiamos da Duquesa de Bedford e que adaptamos ainda mais ridiculamente ao nosso clima tropical.

Quando vejo tanto esforço para agradar, para se higienizar e parecer civilizado sinto um pesar danado por toda a minha gente. Quem diabos falou que ser feliz é falar “food delivery”, “stock options”, usar blazer de linho e queimar a moleira no sol escaldante do Golf Club?

Essa coisa de reconhecimento, de precisar de aprovação externa pra tudo que fazemos é de lascar. Por isso a Anita se transformou nesse fenômeno bundístico midiático. Mais um. E todas seguem copiando o modelo imposto. Parece que hoje em dia a maioria das mulheres sonha em sair numa capa de revista. “A mulher do Ano”, “O Escândalo do Ano”, “A Genitália Mais Rosada do Ano”. Existe uma urgência preocupante nelas. Elas entram e saem das baladas empunhando latinhas de cerveja cantarolando refrães altamente machistas e sempre, sempre dispostas a tudo. Um exército faminto de gloss, mechas e tolices. E os homens, ao olharem pra aquilo tudo não devem ver outra coisa senão um frigobar com orifícios pronto para ser aberto, degustado e descartado. Um açougue ambulante onde ele pode escolher que corte da anatomia feminina ele prefere e, de quebra, tomar uma gelada.

Tem coisa mais fácil e entediante que isso? Em que ponto a mulher saiu da posição de subjugação servil para se tornar uma caricatura cafajeste de apelo sexual para um modelo de homem que quase não existe mais? Vai saber. Eu não sei. Sei de muito pouco. Apenas observo perplexa esse caminhar trotante das nova fêmeas.

Outro dia fui em uma academia de ginástica entregar uma documentação na portaria e de repente me deparei com meia dúzias desses exemplares femininos. Braços, pescoços, pernas imensas e, sobretudo um comportamento tão agressivo e demasiadamente expansivo que me senti como se estivesse num bar de esquina de algum cais do porto. Algumas delas exalavam mais testosterona do que muito homem por aí. É o que eu chamo de “Comportamento do Púbis Dilatado” ou da “ Síndrome da Vulva Majestosa.”  Engraçado eu sei, mas já notaram que muitas mulheres hoje andam com as pernas meio entreabertas assim como faziam os homens? Acho que é um modo silencioso de dizer:

“Eu tenho culhões por isso ando assim e portanto, cuidado comigo.”

Sei lá. É triste ver tudo isso. Mulheres são flores. Podem ser fortes, podem ser tudo. Dirigir países, multinacionais, executar planos de reengenharia de cidades, mas no fundo serão sempre flores. E é bonito que sejam. Perfumes e cores não deveriam nunca serem transformados em meras redundâncias físicas. Mas vai saber. Eu divago, como sempre. É o meu modo de tentar assimilar tudo isso. Por isso comecei esse texto dizendo que não se ouve Anita impunemente. Não mesmo. Antes tínhamos A Presença de Anita. Doce, irreverente, forte. Hoje é a revanche de Anita, a desforra de Anita. E é assim para todas as mulheres que a seguem.

Queremos o nosso lugar no mundo. E temos, mas ainda não o ocupamos devidamente. Nem mesmo sabemos onde ele fica exatamente. Estamos muito ocupadas nos vingando dos homens. E eles também estão muito ocupados para nos ajudar tão perdidos que estão se fartando desse festim sexual que proporcionamos a eles. Tudo em nós ainda tem um quê de revanchismo. Eu mesma admito que enquanto escrevo trago uma acidez que não é minha, que é fruto sabe-se lá de que opressão vivida.

Mas o mais preocupante disso tudo não é onde estamos, mas onde ainda podemos chegar. Ninguém entende que a fome midiática não tem fim, que o desejo humano é um imenso buraco negro com força gravitacional avassaladora. Portanto, se anos atrás “a chinelada na barata dela” não foi o bastante assim também não serão suficientes o traseiro velocidade número cinco e nem o esparadrapo na genitália. Daqui pra frente, e creio eu que serão dias terríveis, não poderemos nos espantar de vermos multidões se acotovelando para comprarem a última revista cuja capa leva a foto em 5D do colo do útero da artista da vez.

Por isso repito:  Não se pode escutar Anita impunemente nem ouvir funk, o de hoje, impunemente. Pois uma vez que os seus joelhos tiverem se dobrado pela primeira vez para descer até o chão, você e todos os seus valores, nunca mais serão os mesmos e possivelmente jamais encontrarão o caminho de volta para o bafejar de ar puro que só a boa e velha dignidade pode nos trazer.

Ah, Anita, que desserviço ao gênero…

Gostaria de encontrá-la um dia e falar amigavelmente sobre tudo isso. Pois como disse gosto dela, simpatizo com esse ar de garota da rua de cima, da moça cheia de energia e simpatia. Mas provavelmente e para o meu espanto, ela irá me dizer com a voz segura e confiante de uma mulher de negócios:

“Meu bem, eu entendo todos os seus conceitos. Amo Balzac e Baudelaire assim como você e já devorei todos os livros da distinta senhora de Beauvoir.  Mas sou um empresária de visão e se o mundo pede um traseiro eu vou dar o melhor, o mais retumbante e o mais lucrativo a história já teve. O segundo sexo querida, não é a mulher e sim a bunda.”

E então ela decolará em seu jatinho deixando uma bruma de Chanel e ironia no ar.

E enquanto eu volto pra casa olhando para a ponta gasta dos meus tênis direi comigo mesma:

“Danada, essa moça…”

 

 

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.