Devota

O problema querido é que te elegi assim, cedo e de pronto, um santo.

E agora vivo enrodilhada, cheia de suspiros e pudores aos pés do teu altar.

Que coisa… És tão bonito assim cheio de dentes, barbas e veias. Pareces tão real. Tão real que eu, em meus sonhos, te sinto o toque das mãos. E neles, nos sonhos, tu falas, aconselhas e ralhas comigo como bem entendes. E eu? Eu acolho. Sou devota, o que mais posso fazer?

E olha, nesses sonhos que confesso a tão poucos, que admito talvez somente assim nessas linhas tortas, tu és meu dono e senhor. E por tanto me teres assim em gratuito, me fazes tua dona também.

Mas veja que sou cordata, nascida para obedecer aos comandos do peito e por mais que brinque de senhora, não passo de uma peregrina fiel dos teus passos.

Sou boa moça homem de Deus, tu bem o sabes. E por te ver assim tão distante em tuas vestes angélicas e ao mesmo tempo tão perto no altar pequeno, calado e sereno e assim feito de barro como eu, moldado por mãos humanas como as minhas, é que suspiro.

É sina das jovens puras esse palpitar de assombro no ventre. Suspiros e desfalecimentos são prerrogativas das almas em contrição que são metade céu e metade mundo. E do mundo sei tão pouco… Desgasto-me tão facilmente com o seu cinismo e violência que me vejo à vontade mesmo é nesse vão de igreja, nesse pedaço ínfimo entre as velas e o genuflexório onde vejo as coisas com as brumas que lhes cabem. Porque olhar o todo assim de frente e sem vestígios de ti é tão duro, tão penoso que me cubro inteira, por dentro e por fora, de rendas e véus.

Só assim, à meia mão de ti, entre o meio passo da vida e a eternidade, é que te encontro e que me encontro também.

Dizem, e sei bem que podem até serem verdades, que tudo isso, as palpitações e febres são coisas de moça intocada que por medo da bruteza dos vivos, escolhe a companhia dos santos. Pode ser…

Mas olha, ao te ver assim tão resoluto em tua posição de salvador de mim, tão certeiro com tuas mãos a me indicarem a direção dos sentidos, não posso ter senão a certeza de que tu existes. E que um dia, dia esse que poderia ser, e ficaria imensamente grata se o fosse, bem antes do juízo final. É que tenho medo de chegar aos olhos de Deus com esse fogo a me consumir o peito. O que eu diria para o Seu filho sobre esse amor que me consome? Logo ele que entende apenas de paixões fraternais?

E peco. Olha, peco sempre, viu? Peco por ornar-me assim tão bela e distante para o mundo só pra ficar mais perto de ti. Peco ao perfumar o corpo e a alma com virtudes que sei que somente tu poderás acolher.

E peco sempre quando estremeço entre os lençóis nas noites insones ou mesmo aqui diante de ti quando convulsiono dizendo o teu nome, momento esse que parece que o coração e as entranhas são um todo só.

É que como disse, querido, te fiz santo assim tão cedo… Te elegi ao priorado máximo da minha congregação. És o sumo sacerdote de todas as minhas arquidioceses. Fostes ungido, elevado e santificado com a liturgia que corre em minhas veias e com o sangue desse mesmo rio que verto todo dia impróprio do mês. Coisas de fêmea, dizem.
Mas nisso não acredito. Meu corpo é apenas uma expressão minúscula do que minha alma evoca por dentro. E se ele entende apenas de vísceras, sentidos e rótulos, minha alma, que para ti se apresenta sempre nua e trêmula, sabe e bem, bailar aos passos dos anjos.

É por isso querido, pois amado não ouso te chamar com essa mesma boca que considero impura, que devoto os meus dias com todas as suas primaveras e outono à ti.

És um anjo. Anjo meu apenas, pois sei que para o mundo não és nada menos que um pecador. Eu sei…

Mas eu te inventei e nas invenções do coração de uma mulher que ama assim tão de verdade, moram castelos e felicidades que ser vivente nenhum é capaz de entender…

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.