• Portais do Grupo Hoje Comunicações

Conversa de bar

– Meu amigo, eu lhe digo que hoje eu largo aquela mulher.

– Mas por quê, Ernesto? Não estava indo tudo tão bem? Ela mudou pra sua casa faz o quê? Um ano? Você não me disse que a vida de vocês era uma eterna lua de mel?

– Pois é, Claudio. É uma eterna lua de mel. E é exatamente por isso que vou mandar ela embora. De mala e cuia. Tô te dizendo…

– Não entendi nada, Ernesto. E você não me falou que a pequena é gente boa? Que tem um papo bacana, que cozinha que é uma maravilha, que é amiga dos seus amigos e que ainda por cima é bonita pra caramba e uma deusa tântrica embaixo dos lençóis?

– É Cláudio. Ela é tudo isso. E é por isso que vou largar dela. Eu vou.

– Mas que diacho Ernesto! Endoidou de vez? Tá querendo o quê? Voltar a namorar aquelas barangas da zona oeste? Ou gastar todo o teu salário com as interesseiras da zona sul?

– Não, Claudio. Isso também não quero. Mas largo ela hoje. Te digo. Largo hoje mesmo.

– Mas o que foi que ela fez de mal Ernesto? Te pediu dinheiro? Te traiu? Te traiu! Foi isso! Tá certo. Essas coisas não se perdoa mesmo. Não mesmo.

– Nada! Me traiu não. Antes fosse. Antes fosse.

– E o que ela fez de tão grave então, homem de Deus?

– Fez nada Cláudio. Fez nada. Mas largo ela hoje. Largo.

– …

– Olha, te explico. Eu chego em casa e a criatura está cheirosa e arrumada. Me recebe na ponta dos pés e me faz experimentar o molho do jantar. Depois me conta como foi o seu dia. Ela trabalha pra ONU, então tem sempre uma história de algum país distante que ela ajudou a tirar da linha da pobreza, de quantas crianças da África ela matou a sede e etc. Na hora da sobremesa, ela me informa que organizou um almoço no domingo com a minha mãe, que costurou o meu uniforme de futebol e que na quarta feira eu não preciso me preocupar em voltar pra casa cedo após o jogo. Na hora de dormir, me beija como se não houvesse amanhã e se entrega pra mim cheia de ternura como se eu fosse o primeiro e o único homem da sua vida. O primeiro e o único! Você sabe o que é isso, Cláudio?

– …

– E ainda tem os churrascos! Isso mesmo. O churrasco que ela organiza em casa para os meus amigos! Você é testemunha! Tempera a carne um dia antes, compra cerveja que eu gosto, deixa as minhas favoritas reservadas no fundo do freezer, conversa com as mulheres e namoradas dos meus amigos como se fossem suas amigas de infância e trata meu cachorro como se fosse um rei! Tem cabimento isso, Cláudio?!

– Ernesto eu acho que você…

– E tem mais! Escuta essa. Hoje pela manhã ela me disse que vinha juntando um dinheiro, economizando da grana do supermercado que eu deixo em cima da geladeira e com essa economia ela abriu secretamente um fundo de previdência privada. Isso mesmo. Em menos de um ano a criatura, economizando dinheiro do leite e do pão, conseguiu aplicar na bolsa e investir num fundo de pensão.

– E isso quer dizer o quê, Ernesto?

– Quer dizer que eu tô feito na vida Cláudio! Mais dois anos e não preciso mais nem trabalhar! Tem cabimento isso? Tem cabimento?

– E você vai largar uma mulher dessa, Ernesto? Tu levou uma pancada na cabeça, foi?

– Nada. Eu sei o que faço. Largo hoje mesmo. Prefiro as vampiras da zona sul. Ou as mocreias da zona norte. E eu lá posso acordar ao lado de alguém que tem o cérebro do Stephen Hawking e a cara de quem parece que saiu de uma capa de revista? Te falei que ela não tem bafo, Cláudio? A mulher não tem bafo Cláudio! Não tem!

– Eita Ernesto, tu tá maluquinho mesmo…

-Tô nada Cláudio. Tô nada. Sei o que faço. Dou conta não. Próximo passo é o quê? A Casa Branca? Eu te digo que se ela se candidatar ela ganha. Ganha sim a danada. E eu lá tenho cara de Primeiro Damo? Tenho não. Largo essa  sujeita hoje mesmo. Vai cheirar bem lá nos diabos! Eu quero é dormir em paz. Nem que seja ouvindo o ronco de uma dessas barangas de bigodes da zona norte…

 

 

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.