A última valsa

Sabia que o final de um ciclo se aproximava. Suas mãos débeis e seus pés vacilantes denunciavam que era hora do fim.

Ao ver aquela mulher que havia me concebido e me orientado em cada passo da vida andar de forma tão frágil pela casa, uma infinita gratidão tomou conta de mim. Sabia que teria que me despedir, mas não queria que fosse triste. Ela sempre foi uma mulher alegre.

Coloquei na vitrola sua música preferida. “Rock and Roll Lullaby”. Acho que lhe fazia lembrar de um par romântico de alguma novela. Sim, ela era romântica. Havia sido a vida inteira. Interrompi seu lento percurso entre a sala e o quarto, estendi minha mão, olhei em seus olhos e disse:

– Esquece as dores um pouco mãe . Quero que se lembre de quem você é.

A conduzi em uma valsa suave. Ela entendeu. Aos poucos seus olhos se fecharam e ela se deixou levar. Foi transportada para algum lugar distante dali e se viu dançando com meu pai. A última dança. A dança que eles nunca tiveram. Ela lhe disse tudo o que não havia conseguido dizer antes dele partir. Ela disse:

-Eu te perdoo. Obrigada. Eu te amo.

E ainda arrebatada pela música, ela rememorou cada gravidez. Abraçou, amamentou e abençoou cada filho, dizendo como ela o amava.

Depois, bailou até a sua juventude e se viu em seu esplendor físico. Como ela era bela! E como continuava bela!

Valsou com seus pretendentes da mocidade e ouviu novamente os elogios aos seus encantos. Ela era realmente encantadora! Sorrindo, continuou bailando e na segurança dos meus braços foi ainda mais longe. Voltou à sua infância. Se viu correndo descalça em meio as ruas e árvores da sua meninice. Reviu os olhos alegres de cada amiguinho e correndo com o vento batendo em seu rosto, foi de encontro aos seus pais. Foi abraçada, acolhida e amada por eles. Ficou ali, valsando em meus braços enquanto seu espírito era embalado pela sua mãe, inalando o aconchegante perfume de outrora. A música acabou. Ela lentamente abriu os olhos, sorriu e disse:

– Obrigada filho. Agora preciso me deitar um pouco.

Levei-a até a cama e ela ficou ali, rememorando cada pedacinho de emoção vivida. A linda valsa da sua vida! Ela estava em paz. Pediu um pouco de água, ajeitou-se nos travesseiros como quem ajusta o assento do carro antes de uma longa viagem. Ah! Ela adorava viajar! E sabia que aquela era a viagem mais importante da sua vida. Me olhou por um longo tempo como que para decorar minhas feições intuindo que ia demorar a me ver de novo. Seu rosto transbordando amor e gratidão. Ela sorriu pra mim mais uma vez, fechou os olhos e partiu…

Cantarolei baixinho pra ela como em uma canção de ninar:

Sha na na na na na na na

It will be all right…

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.