A histeria que a felicidade exige

(Coisices e reverberações de Lígia Fagundes Teles)

Na calçada, olhava pra baixo, absorta. As pontas dos sapatos gastas, a vida gasta, tudo ali era gasto, passando. Sua vida era como um pedaço de folha seca ou uma embalagem de bala boiando naquele corregozinho escuro do meio fio. Ninguém via o papel de bala. Que um dia fora doce, que um dia fora belo, mas hoje ninguém via, ninguém lembrava.

Uma brisinha cortante a faz levantar as golas do casaco. Digo brisinha pra não parecer tão grave.

“Merde, l’hiver!”

Sim Lígia, o inverno. O do lá de fora eu não sei já que as crianças continuam a rir, estúpidas e as mulheres continuam a parir, estúpidas. Mas o da alma sem dúvida. Sem dúvida.

Eu tenho essa mania de falar comigo mesma como se fosse outra pessoa, profetizando horizontes, determinando fins. Tudo medo.

“É assim mesmo.”

Digo para a menina tola que eu era como se fosse uma velha sábia.

“É assim mesmo.”

Mas o que eu dizia? Então eu não tinha tudo? A casa no bairro nobre, a fazenda na planície nobre e a cobertura na praia também nobre? Não era tudo nobre em mim? Desde as fivelas do meu sapato às pérolas do meu pescoço? Minha foto não possuía cadeira cativa nas colunas sociais? Meu sobrenome não estava fundido na placa do colégio do bairro e minhas orquídeas não eram premiadas?

“E por que então essas melancolias, criatura?” Eu me perguntava como a mulher prática e objetiva que geralmente era. Essa eu é a coluna do meio. Explico:

Em mim moram três. A menina que um dia sonhava e vivia (ah, como vivia!), a velha sábia que me acalenta com frases de contentamento “É assim mesmo”, e essa do meio, chata, estridente, perua até a última cutícula defendendo seu ouro e as joias da família. Essa é a mais forte, decerto já que eu estou há muito, presa em seu avatar. Não. Ela não é a mais forte não. É apenas a mais presente. Mas é a mais fraca também.

E essa eu do meio, tem pavor da velha sábia que poderia fazê-la desistir das plásticas e dos coquetéis high society e se enfurnar em um casebrezinho em cima da montanha (que não seria nobre). E tem pavor também da menina, pois bem sabe que ela não hesitaria em fugir com o primeiro siciliano que lhe aparecesse na frente das narinas e terminar sua vida rodopiando na garupa de uma Motorino por aquela maravilhosa costa. Linda, pobre e com todas as marcas do tempo no rosto. Quem aguenta isso?

Nem a Sophia Loren deu conta de ser a Sophia Loren. Cinco anos após ser considerada A Sophia Loren, essa infeliz já corria atrás do prejuízo pra continuar sendo A Sophia Loren.

É bem verdade que toda mulher que não nasceu sábia como uma velha nepalesa, desde a mais tenra puberdade, já se matricula involuntariamente nessa corrida infame. E são duas corridas. A primeira para ser quem os outros esperam que ela seja e a segunda para se manter nessa posição.

Toda mulher é uma busca no espelho. Se Narciso fosse mulher não teria se afogado, mas beberia, par contre, o lago inteiro. Desculpem-me. Sou assim. Falo francês sempre que estou sensível ou irada. Tudo cai bem nessa língua. A ira, o amor e, sobretudo a indiferença. Culpa não porque os franceses não tem tempo pra isso.

Enfim. Três mulheres em mim. A menina, ainda ávida no parque de diversões esperando sua vez na fila dos brinquedos. Só brincou em dois ou três e por não saber que ia ser tão bom nem pôde se preparar melhor ou repetir. Mas tudo bem. A ingenuidade não conhece inteligentes antecipações . E quando se respira assim tão bem nem nos damos conta, né Lígia?

É. Volto a olhar para o papel de bala boiando inerte na água suja do meio fio assim como tantas existências por aí que se entregam ao destino sem grandes resistências. Era doce, era belo e hoje…

Todo velho curvado que anda pela rua já foi um menino vivaz, um rapaz de peito estufado. Toda senhora que arrasta o joelho calcificado pela calçada já foi um moça que arfava. Arfava. Que coisa antiga. Hoje ninguém mais faz essas coisas. Ninguém mais tem tempo para palpitações seja para as do corpo seja para as da alma…

“Ora, pombas! Quanto drama!”

Me diz a perua.

“Não se atrase para a massagem. As mãos daquele japonês são divinas. Di-vi-nas!”

Ela insiste num entusiasmo tão falso como o seus peitos e a sua cara esticada pela quinta vez. E fala assim dividindo e alongando as sílabas pra dar mais ênfase. Pobre criatura. Estúpida. Coitada. Que corrida. Das três é a que trabalha mais. Porque ninguém prepara a gente pra vida. Quando menina, queremos tudo. Tudo será belo e feliz. Quando velha e sábia, aceitamos tudo. Acolhemos tudo com a complacência de uma ovelha caquética. O punk mesmo é o meio do caminho. Que começa assim que a menina sonhadora começa a se ferrar e a ferrar os outros. Aí ela é só desamparo. Porque ela tá ali levando bordoada, mas não pode mais voltar pro colo dos pais e os braços da velha sábia que um dia irá morar nela, ainda não a alcançam. Essa só chega bem mais tarde, pra reparar os estragos, pra alinhavar os pedaços que sobraram e lembrar a gente de tomar o remédio na hora certa.

Então nesse meio do caminho que é a vida de verdade sem antecipações e consentimentos brandos é que alguém tem que entrar e arrumar a casa, encontrar uma forma pra esse limbo, esse éter de confusão, amor e fúria que somos enquanto vivemos.

A persona que inventamos para o meio do caminho da vida é isso. É aquela que levanta do chão do banheiro, enxuga o rosto e vai pro banco pagar as contas. É a que leva o lixo pra fora (ou pra dentro). E nessas horas não dá tempo pra elaborar muito não. Alguma coisa vai ficar no meio da estrada. Seja a arrumação do seu cabelo ou a sua moral. E eu, vaidosa até os dentes, escolhi deixar a moral pelo caminho. Pesa muito essa coisa de virtudes. Então logo tratei de arrumar um ser mediano e remediado para me garantir a subsistência, um jovem burro e discreto pra me garantir os orgasmos e um bom cirurgião pra dar conta de todo o resto.

E no mais sigo assim, distribuindo sorrisos histéricos e petrificados nas fotos das colunas sociais. Inventei que seria imbecilmente feliz pra sempre e agora passo todos os meus dias nutrindo esse avatar faminto que criei e que por sinal todo o resto do mundo adora. Vai entender.

Pra fugir desses pensamentos sérios, interpelo um pobre coitado na rua:

“Moço, bom dia. Tem um cigarro? Ah, obrigada.”

E atravesso a rua rebolante e confiante em cima do salto. E olha que eu nem fumo…

 

Beatriz Aquino, graduada em Publicidade e Propaganda e Artes Cênicas. Atuou durante anos em consultoria internacional. Autora dos livros Apneia (Editora Scenarium) e A Savana e Eu (Editora Penalux) escreve sobre crônicas, contos, poesias e textos de opinião sobre diversos assuntos. Atriz e escritora. Às vezes mais escritora que atriz. Mas no fundo só quer ser poeta mesmo. Mais Feliniana que Helênica, às vezes escreve com a bílis, às vezes com a ponta da língua. Pode ser doce. Pode ser ácida. Pode ser tudo. Mas não quer ser nada. No final das contas é só uma mulher que sente e escreve. Ou uma mulher que escreve e sente. Deu pra entender? Se não, melhor ainda.